quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Murmurios

Quando se tem a vida rodeada de murmurios de coisas a fazer não se pode reclamar. Afinal, seria um tédio se nada nos incomodasse ou desacomodasse.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Trincado da casca

Criara o meu casulo, engrossava a casca com medo do mundo. Encolhera meus tentáculos de cutucos na vida. Guardara minha vara curta. Fugia das onças. Estava no meu cantinho entre minhas cobertas frias com minhas meias de lã pra poder dormir. Já desistira de sonhar com a paixão e o desassossego e sem aviso encontrei você. Meu colírio, minha visagem de força e pele de chocolate. Ah! Quem me dera provar deste gosto. Ah! Quem me dera saber de onde você veio e se lá tem mais destes como você. Ah! Quem me dera poder sonhar de novo com os abraços de encontro com o amado. Ah! Vida, vida surpreendente, me mostra mais destas surpresas assim com jeito de sobremesa, leveza, Platão.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Salvamos

Que coisa maluca esta estrutura cognitiva que o meio nos impõe, principalmente a tecnologia. Nossa linguagem e estado de espírito vai se configurando em uma coisa só. Nosso modo de ver as coisas, de memorizá-las vão se tornando nosso próprio pensar e fazer, nosso sentir. Vamos salvando coisas em arquivos ora importante, ora relapsos. Nossos lapsos de memória se misturam em esquemas de arquivos e os mapas se entrelaçam e enfumaçam nossa visão das coisas. Temos medo de perder arquivos. Alguns de nós usam pen-drives como adorno, colar. Sim, porque a qualquer momento eles podem precisar acessar algum arquivo, alguma lembrança. O pen deve ser gigante, potente com alta capacidade de compatibilidade. Enfim, esta conversa iria longe demais e eu teria que esquematizar uma ordem hierárquica para não me perder. A tecnologia tem feito isto com a gente. Estamos sendo transformados em robos inteligentes. Quem precisa de inteligência artificial se nós humanos já nos transformamos em artificiais inteligentes ?

Esta reflexão continua.....

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Onde andas?

Onde andará o moreno que estava aqui?
Passou assim de fininho por minha solidão,
Fez alvoroço de empatia, olhava pra mim e sorria.
Deu-me a impressão de ter sido boa,
E pareço que ando à toa pelos caminhos,
Tentando vê-lo vindo até mim sozinho.
Onde andará o moreno que estava aqui?
Parecia tão alto e forte, tão certo das coisas e de si,
Olhava pra mim com firmeza, tocava meu braço com força,
Cheguei a sentir sua decisão de me prender ali mesmo à sua história.
Não me acho boba por querer saber,
Vejo que ainda estou viva, imaginativa, altiva
E bendita a espera de alguém novo que está por aí....
Vou ficar feliz em saber onde andas
E se a vida encontrará nossos caminhos.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Pré ver que nada vê

Hoje de manhã eu comentava sobre nossos olhares sobre o cotidiano. Temos por norma formar idéias sobre as coisas e tabular em nossa mente modelos que facilitarão emitirmos definições e conceitos sobre o movimento da vida. Mas fazemos isto com tanta necessidade de produzir certezas que ficamos cegos na maior parte das vezes. Registramos idéias sobre regularidades da vida com tanta força de exatidão que passamos a não suspeitar se aquelas aparentes regularidades, quando recorrentes, possam trazer outros aspectos que não foram vistos por nós e que por isso, não farão parte de modelos mentais inventados para compreender o mundo. Não suspeitamos que os olhares seguintes não passarão de repetições de um olhar produzido pelo modelo mental.
A partir daí nos achamos experientes. Passamos a fazer a mesma leitura de fenômenos, fatos e eventos, enfim, coisas da vida. A dinâmica da vida passa a ser algo conhecido para nós e passível de ser sistematizado. Passamos então a prever coisas, pré ver, na verdade, porque nos valemos de algumas sistematizações para definir tudo, eventos, comportamentos, sentimentos, valores, tudo. Nos transformamos em seres robotizados achando que sabemos tudo, dominamos tudo, quando na verdade, nos impossibilitamos de olhar as coisas buscando as irregularidades, por assim dizer. Analisando-as e dando-lhes algum crédito, poderíamos compreender melhor e não mais do que podemos ver, manteríamos nossas portas abertas.
Pois passamos pela vida entendendo que o cotidiano está repleto do mesmo e esquecemos que ele esconde coisas que não elegemos como visíveis, e que portanto, por vivermos pré vendo nunca as veremos. Quando será que aprenderemos a nos desprender desta necessidade de explicar as coisas faltando os pedaços? Quando será que nos tornaremos seres que independente das visões sistematizadas estaríamos sempre em busca de novas visões?

quarta-feira, 11 de maio de 2011

O ninho e a chave

Havia me comprometido a fazer parte de uma mostra de intuição artística ou intuição estética, como tenho encarado a definição desta intervenção. O nome da mostra é Livros Verdes (Karine Sanchez). Cada um construiria a sua concepção de livro verde, isto é, alguma coisa que represente relações com a Educação Ambiental. Havia aceitado que esta ação fosse promovida dentro de uma disciplina, envolvendo alunos e alunas inspirados e desafiados a se exporem com suas idéias abstratas ou concretas ouconceituais o diabo. Tentara uma colagem ao mesmo tempo em que começara a testar materiais. Fiz a maior cacaca, minha obra virou um amontoado de colagens coladas e grudadas uma nas outras. Era conceitualidade demais para um exposição, um misto de possibilidades de vaia e estorvo. Pus de lado aquela idéia, que mais valeu pela experimentação das coisas do que de um produto para ser exposto. Valeu pela vivência íntima, pessoal. Até achar que haveria interlocutores compreensivos seria querer demais.
Dias antes quando andava pelo jardim reparei um ninho em contrução caído na grama. Juntei e fiquei admirando a trama maravilhosa que seu construtor iniciara. Não era a primeira vez que juntava um ninho pelo pátio, mas aquele não chegara a ser usado, estava novinho, e fora arrancado de seus galhos de fundação pela ventania. Institintivamente o guardei no atelier, queria admirá-lo com mais calma.
Pois foi para ele que olhei quando via que a obra anterior com as colagens havia caído por terra.
Logo pensei que seria legal levar a metáfora da coisa em contrução, da coisa inacabada e achei que aquele ninho era o símbolo para isto, era mais do que isto, era uma representação meiga de processos vitais, de processos de resguardo, de conforto. Mas era também a representação de processos que caem, que vão por terra e que nos abrem possibilidades de novos encontros, de abrirmos novas portas. Foi então que pensei que esta possibilidade poderia ser representada por uma chave. A chave seria colocada abaixo do ninho. Fiquei satisfeita com o meu processo e com o semiproduto, deixando sem resposta, e talvez suscitando algumas perguntas.
Levei pra exposição e a deixei lá, sobre uma mesa redonda que colocaram para mim.

domingo, 8 de maio de 2011

Permito-me enganos

Permito-me tantos olhares, tantas maneiras de ver o mundo. Não tenho medo da contradição e da incoerência, pois chamo em meus des-norteios (ou des-suleios) a recorrência de ponderações plausíveis. Como se testasse minhas crenças a todo o momento quando falo, penso, sinto o mundo. Busco um jeito de apreender as coisas do mundo e poder me situar, mesmo que por instantes sutis. A sutileza da vida talvez seja isto, poder se permitir os enganos e se colocar como eterna aprendiz. Quem sabe em algum momento distante saberei melhor sobre as coisas mundanas, sobre as gentes que encontro e desencontro pelo caminho. Já teve um tempo em que me arvorava de certezas e convicções. Era até intransigente com estúpidos. Tornava-me assim também a coroa da estupidez. Achava que minhas leituras de papel impresso e de vagas interpretações poderiam me comprar a sabedoria em latas com zíper fácil de abrir. Talvez ainda haja tempo para minha salvação, descobrir que mais do que nada sei, nada sei do que nada sei. Sou uma mulher de meio século tentando superar o próprio século em vão. Mas permito-me a asneira, a brincadeira, as colagens e bricolagens que voltei a experimentar. Tenho me dedicado a colagens de embalagens e revistas, jornais, desenhos, gizes de cera, glitter e tal, escrito poemas a partir do passatempo com elas e pode crer que vou me achando nos caminhos incertos das meditações. Tenho me permitido jogar dados, como a cartomante com seus búzios lendo a sorte vou relacionando imagens, palavras e pensamentos. Vou exorcizando impressões, medos de dizer a verdade, inverdades, sonorizando idéias, enquanto um bem-te-vi insistente se observa em minha vidraça, por minutos sem fim. Eu me permito todas estas loucuras que tem sido minha vida desde que inaugurei esta fase de não me importar tanto com a verdade verdadeira, mas com a psicanálise de minhas visões de mundo.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Detalhes

Ouvi alguém dizer um dia que a beleza se constitui de detalhes. Não sei se é certo dizer isto, mas isto me levou a observar os detalhes bem mais do que já o fazia. O termo detalhe começou a exercer uma influência sobre minha forma de pensar, sentir e agir com tanta intensidade que hoje me defino como detalhista entre outros defeitos ou qualidades, não sei.
A partir destes significados passo a entender que os detalhes nos descrevem. Eles todos tecidos junto vão configurando nossa identidade, integridade. Vou estendendo estas impressões à minha maneira de encarar a vida e as pessoas, nossas ações, nossos sentimentos e nossos pensamentos coletivos.
Parece-me que temos acelerado tanto os tempos vividos que nos esquecemos dos detalhes. Aquele cuidado necessário para a configuração significativa de nossas atividades humanas e, como já disse, sentimentos e pensamentos vai se perdendo, sendo deixados para depois e a partir daí nossos edíficios se tornam torres de papel.
Quando educamos nossos filhotes toda a atenção precisaria ser dada aos detalhes, a coisas que não costumamos parar para olhar e ver, sentir. Como construir uma estrutura de esperança na vida, por exemplo, se não prestamos atenção aos detalhes de nossas falas e gestos traduzindo nossa própria desesperança? São detalhes importantes que deixamos passar nessa vida vivida aos borbotões, rechaçando-se detalhistas que urram por tempo para olhar e ver sem serem desconsiderados.
Onde vamos parar com esta aversão aos detalhes é muito cedo para dizer. E a grande contradição é que o mundo está repleto de detalhes que a gente não vê. O que será da vida quando todos os detalhes forem vencidos, não sei.
Espero que me seja permitido o detalhe de viver.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Um faniquito e Guias

Há dias em que temos que aceitar a vida comum. Ir ao super, ao correio, botar gasolina. Fazer comprinhas miúdas. Daquelas com as quais nos arrastamos para decidir fazer. Daquelas comprinhas que ficam listadas no cantinho das anotações, que fazem falta, mas que podemos viver sem. Costumo distribuir minhas atividades por prioridade urgente urgentíssima. Por isso, costumo ter pendências aos montes.

Não sei o que é pior, ser uma piorra louca fazendo tudo como the flash, ou assim mesmo como faço. Vou empurrando com a barriga metafórica (deus me livre ter barriga, cruz credo, abomino) as coisas por fazer para poder viver estas gotas de tempo ao máximo. Não tenho tempo a perder com afazeres chatos. Quero perder tempo fazendo nada.

Pois bem, hoje decidi fazer destas coisas e fui ao correio para saber do que tratava o aviso que deixaram em minha caixa, sem nem mesmo baterem no portão. Mas isto é outra incomodação. Então. Chegando lá me foi dito que se tratava dos documentos do carro. Não poderia ser, ainda não paguei o imposto. Enfim, entre dúvidas e espantos, assinei o recibo. Abri ali mesmo e constatei que se tratava do documento de um carro que foi roubado de mim em 1996. Uma novela que ainda se arrasta, porque ele foi localizado anos depois do roubo e já havia recebido visitas duvidosas de pessoas que queriam que fizesse a transferência do carro para eles. Eu respondia dizendo que o carro pertence à Seguradora, porque eu já havia recebido o seguro. Esqueci desta questão já faz mais ou menos 7 anos.

E agora estava eu ali novamente em contato com este episódio, pasma, impactada, sem entender porque eu tenho que passar por estas coisas. Tentei argumentar com a funcionária do correio que recebesse de volta o documento e avisasse o órgão competente. Nada feito. Saí de lá abalada, dei uma volta de carro a caminho de outra tarefa e decidi voltar ao correio. Tentei novamente o que já contei e nada feito. A moça me disse para resolver isto porque poderia recair sobre meu nome os possíveis problemas que fossem gerados pelo condutor do veículo. Saí dali mais abalada ainda, chingando o pára-brisa do carro, inclinada para a frente sobre a direção. Totalmente descontrolada e assustada com este tipo de evento.

Tentando dar conta da outra tarefa - comprar um tênis para meu irmão - dobrei numa rua errada. Ao tentar fazer o retorno dei com os olhos numa plaquinha do DETRAN e descobri naquele instante que havia um posto do DETRAN no meu bairro. Ufa! Não precisaria ir até a cidade. Estacionei de qualquer jeito. Aproveitei o pouco movimento e entrei no lugar esperançosa que ali seria resolvido. A precariedade do lugar não me decepcionou, um verdadeiro ambiente de balneário e com toda a preguiça que se tem direito. Dois funcionários ocupados revezando atendimento.

O que não estava atendendo perguntou da cadeira em que sentava lá detrás do balcão: pois não, ele disse, em que posso ajudar. Pálida, com certeza, respondi: Me salve, tenho aqui este documento que não é mais meu mas leva meu nome. Pacientemente ele me explicou que se tratava de alguma seqüência de ações para regularizar o veículo. Que eu não me assustasse. Veria isto tão logo o sistema eletrônico que utiliza voltasse a conexão. Estava fora do ar. E eu também estava fora do ar até que a calma daquele homem aparentemente relapso me trouxe para o chão. Ficou de averiguar. Ligaria para ele mais tarde.

Nossa! Um verdadeiro faniquito numa manhã tão ensolarada. Foi uma boa desculpa para priorizar não fazer mais nada de útil o resto do dia. Sou feliz, posso fazer isto. Fiquei pensando mais tarde sobre a ajuda que recebi ao ser guiada até o misterioso posto do DETRAN, saído do nada, já que não sabia de sua existência. Obrigadinha aí protetores. Valeu. Prometo mais calma da próxima vez.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

É de manhã.....

Vem o vento fininho do frio e os pássaros visitantes de minha janela se apresentam. Ontem afastei a escrivaninha da janela e vim parar no outro extremo da sala e percebi o quanto o distanciamento oportuniza outras visões. A janela agora é um quadro para o jardim. Enquandrando a paisagem, aumentando a profundidade meu olhar se modifica e meus sentimentos com o espaço também. Podem dizer que é pieguice, mas qual ser emocionado não o é. Eu me emociono com estas pequenas coisas e por serem pequenas me completam e quase afogam, porque relembro de minha pequenez. Como sou pequena diante destas imagens e sentimentos. E como é confortável lembrar disto. Hoje vou sair por aí sentindo o mundo assim como o micro ser que sou. Sou quase uma duende. Hi! Quem me dera ser encantada, feito uma fada serenando a vida. Hei de ser. Hi!

terça-feira, 12 de abril de 2011

Embora borá

Os dias de sol ajudam a querer mais sol. Mas em qual lugar? Os caminhos são feitos de calçadas irregulares e jovens estabanados disputam os espaços. Você é obrigada a sair do caminho, pois corre o risco de perder o equilíbrio e se espatifar na areia solta. Sinal dos tempos. Aumentou a população de transeuntes e já não tenho aquele rabinho de parar o trânsito. Às vezes desço da calçada com o rabinho entre as pernas. Como é interessante esta constatação. Acho graça. Fico feliz em ainda ter um cérebro. Está na hora de ir embora, tecer meus pensamentos em lugares sem disputa. Se for possível evitar as calçadas e horários de tumúlto. Essa energia vital borbulhante me esgota. Quero e preciso da calmaria. Ah, não tenho mais pressa. Não me apressem, não me empurrem pra areia. Tudo bem, evitarei as calçadas, as trilhas, os comandos. Sei que a opressão não vai terminar. Ainda terão os impostos, as datas de aniversário, as festividades impostas, mas poderei sonegar algumas coisas. Afinal, quem vai contrariar uma senhora, que neste momento da vida, só quer ir embora, borá, borá. Viver de preguiça, doideira artística, poesia, mas claro, não deixar de dar vassouradas nas injustiças aviltantes. Viver na bora, entre o tino e o destino. O que há de ter?

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Manifesto de uma educadora

Foram muitas noites sem dormir estudando
para ser o que eu queria ser: professora. Como a maioria das brasileiras,
precisei trabalhar muito cedo e o estudo teria que ser feito conforme o
tempo disponível: as mil e uma noites de uma sonhadora.

Passei por muitos
espaços, muitas culturas de trabalho, mas o sonho de ser professora estava
latente, persistente, aguardando o momento de se realizar. Não foi fácil. A
escola e a universidade passaram a ser lugares de desejo. Pensar, falar,
argumentar, criar, descobrir, aprender, ensinar, compartilhar eram mais do
que sonhos, eram necessidades de auto-realização/social. Seria a minha
forma de contribuir e participar do coletivo social. Eu me ofereci para
este trabalho.

Quando presencio, tomo conhecimento e experimento a dor,
por empatia, de um acontecimento como o da MORTE DAS CRIANÇAS NA ESCOLA DO
RIO, no dia de ontem, 7/4/2011, eu consigo esquecer todas as outras dores
do mundo e meus sonhos, hoje realizados se estremecem, porque além das
vidas roubadas, a confiança e a segurança das crianças, pais, professores e
de todas as pessoas do bem que habitam o templo escolar está abalada. Este
tipo de coisa não estava nos planos de nossas vidas. Como suportar a
presença deste tipo de medo? Como sermos 'formadores' de professores e
dizer a eles que tudo vai acabar bem?

Hoje estarei dialogando com meus
alunos sobre isto. Para nós, isto não passará em branco. Entre nós os
convidarei a fazer uma reflexão e uma oração pelas crianças e seus
familiares, e, por que não, pela alma perturbada de seu agressor. Orando
também por toda a humanidade, porque acredito que a cada ser maltratado é
toda a humanidade que é maltratada.

A cada ato de violência, seja qual
for o motivo, é mais um grande passo atrás que daremos em nossa evolução. O
que nós educadores podemos fazer? No momento, abrir a roda para a reflexão.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Ser ou não ser

Puts, parece que lá vem o meu existencial baixando sem aviso. Hoje saí da academia querendo cair em outra academia. A do samba. Isto me acontece com freqüência nos últimos meses. Ah, que nada. Cansei-me deste lero-lero academicista. Uma nova realidade se descortina a minha frente. Nossa! Santa consciência das cavernas cristalinas ainda intocadas pelo homem! Como as coisas ficam mais claras a cada dia. O meu senso de inutilidade das coisas vãs se aprimora e rio de mim mesma o tempo todo. E como uma voyeur debochada rio de tudo a minha volta. Meus sensores se afinam e consigo ver o quanto se luta pela inutilidade. Não consigo ser eu mesma num ambiente onde todos concordam em voz alta e discordam calados. Um lugar onde a pressa é a dona da imperfeição institucionalizada. Uma perfeição ética e estética esdrúxula. Um orientando amigo diria que entende bulhufas. Sim, disse eu, são bulhufas epistemológicas vigentes. Mas são tantos os inconscientes felizes agarrados ao pão acadêmico de cada dia, são tão apressados em alimentar seu perfil acadêmico no Lattes que não podem parar para pensar.
Não querem pensar no que estão fazendo. Estão no meio do caminho. Não podem parar. Não podem olhar para trás. Não podem deixar que os impeçam de alcançar seus objetivos. E quando vejo e sinto esta febre delirante tomando conta das mentes, me arrepio, e agradeço a toda a minha vida por poder chegar até este momento ainda lúcida. Eu sou feliz por poder decidir entre o ser e o não ser um burro agüentando o trote.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Elogio

Tenho ficado pasma ao constatar a febre do elogio presente nos ambientes acadêmicos. Parece que já é senso comum entender que um trabalho é de qualidade quando é muito elogiado. 'Elogiado por quem?'
Vejo as pessoas quase babando ao dizerem que seus feitos foram muito elogiados por esse ou aquele avaliador. Minha capacidade crítica vinha se incomodando com isto e eu não conseguia entender o que se passava comigo. Isto piorava quando tinha conhecimento das fragilidades de tais trabalhos. Por que me irritava tanto quando alguém comunicava que seu trabalho ou o de seu grupo fora muito elogiado, e que portanto, não poderia ser criticado por ninguém. O mesmo que dizer que já possuem um selo de qualidade que garante sua existência sem necessidade de questionamento externo.
Mas claro que sendo pensante eu encontraria um motivo para minha irritação. Havia alguma coisa que essas pessoas não vêem, porque não querem ver ou porque são tolas e presunçosas. Claro, todos sabemos que muitas técnicas do adestramento se utilizam do elogio para incentivar o aprendiz a seguir as ordens do instrutor, tutor, co-mandante. No caso acadêmico, a lógica vigente.
Sei que não poderei dizer isto a quem se baba com elogios, mas poderei pensar e dizer em silêncio: good boy!

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Experiências

Se estamos na vida pra sermos um laboratório de nós mesmos tudo que vier será bem-vindo. Até mesmo o fracasso. Em igual condição do sucesso. Ambos em sucessivas amostragens poderão nos mostrar afinal o que viemos fazer aqui: aprender.
No entanto, podemos tentar dar o cenário e a música destas experiências. Podemos tentar com todas as nossas forças fazer do trajeto um caminho de pedras, tudo bem, mas pedras roliças de rios cristalinos.
Ah, eu quero pisar nestas pedras e me aventurar, ser equilibrista, mas sentir a água fresca da correnteza em meus pés descalços.
Quais tantas experiências ainda estão por vir? Não sei. Estou preparando uma nova mochila de roupas limpas, vida mínima, mas levando na bagagem tudo o que tenho de mim. Já estou transbordando e semeando o meu tento, tento feito de ervas finas e aromáticas. Quero me dar este agrado, viver atenta ao que ninguém vê e desatenta ao que sobra.
Quero deixar um rastro de experiências de perfume, de lutas coadas, de essências da mais pura consciência da infinitude da vida.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Blindagem

Blim, blim.
Cadê minha blindagem?
Afetar-me com o mundo sempre foi minha sina. Afetar-me com as coisas sempre me lembrou que estou viva. Mas que vida? Viver se chateando com as minúcias humanas já não me diz nada. As energias confusas circulam fantasmagóricas pelos ambientes e nos vemos todos assustados, temerosos, paranóicos. Mete-se os pés pelas mãos, mordemos iscas venenosas, viramos pessoas receosas, medrosas, horrorosas.
Cadê minha blindagem?
Devo viver à margem das felpas, das flechadas sem culpido? Não sei bem, mas claro que sim. Preciso pensar. Pensava eu andar por aí com minhas idéias, uma perfeita ideota. Feliz da vida por ser criativa. Uma vontade danada de contagiar os passantes, criar laços de pura alegria, cantar pela rua, engrossar vozes, gritos infinitos da terra-mãe. Mas os medos do contágio são tão grandes que às vezes sinto, pressinto desagrados e as ondas do mal me afetam. Esmoreço, entristeço, me reviro do avesso, quase desfaleço como uma flor num copo sem água.
Tóimnhoinhoim.
Cadê minha blindagem?
Então relembro: guias de minha força, entes de minha proteção, raízes desta caminhada revigorem mais uma vez minha capacidade de suportar a dor e transformá-la em aprendizagem feliz.
Que assim seja.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Olhos verdes

Vou andando pela estrada e meu olhar vê o verde. Ele me chama mansinho. O verde dança em serenidade e revela pequenas flores silvestres. É a mudança de estação. Outono e Páscoa. Flores tímidas resistem ao vento frio que anuncia o inverno. O sol quentinho, suportável por mais tempo, ilumina a miudez das pétalas facilmente distraídas de nosso olhar. Me empapuço de verde miúdo, de verde enxarcando meus olhos de outras visões. Visões que me afastam dos ruídos de corredores barulhentos de meu cotidiano. Quero mais olhos verdes, verdes encantados e suas flores miúdas de final de verão. Quem vê isto? Será que alguém me escuta quando mostro? Acho que não. Não queria os olhos verdes pra mim. Gostaria muito que fosse de todos.

domingo, 27 de março de 2011

Vizinhança e ambientes cotidianos

Como lidar com diferenças na vizinhança? Principalmente quando cada um resolve ouvir um gênero musical em último volume? Isto me faz lembrar a dificuldade de convivência que tenho experimentado pela vida afora. Cada vez mais percebo o desrespeito e uma necessidade permanente de estarmos lutando por nosso espaço. É uma luta permanente e cansativa para sermos respeitados. Estou meio cansada disto. Todos os dias detecto a falta de respeito de uma pessoa com outra e de algumas comigo também. É preciso uma disposição e energia para problematizar as coisas e para botar os pontos nos is. As relações estão pesadas e frágeis ao mesmo tempo. Tudo é temporário e pronto para ser negado no momento seguinte. Tenho sido levada às vias de fato e obrigada a tomar atitudes radicais e isto me entristece, me cansa, me desilude com grupos e pessoas. Estou cansada de verdade com isto. Tenho sido lembrada por mim mesma a meditar e relevar a ignorância, a falta de solidariedade. Isto exige muito mais do que uma atitude espiritualizada, exige uma atitude de autocontrole extremo. Relevar os ambientes agressivos, a animosidade, exige muito autocontrole. Existe uma demência contagiosa que parece querer disseminar o medo, a paranóia, a desconfiança o tempo todo. É preciso um distanciamento, a entrada na camada à distância extratosférica, viajar nos sonhos, no cosmos e menosprezar a ofensa. Considerar acima de tudo a incapacidade do reconhecimento da alteridade incravada na cultura vigente. Paciência com a música desmusicada, com o volume ensurdecedor, da petulância de quem fala mais alto, de quem tem o equipamento certo para calar as vozes dos outros. Paciência é a grande aprendizagem que se leva da vizinhança e dos ambientes cotidianos nos dias de hoje.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Surpresas boas

A vida reserva muitas surpresas, claro, ouvimos isto desde menina. O tempo vai passando e esquecemos de tentar aprender a dar o significado a essas supresas. Nos confundimos com a realidade que às vezes parece tão surreal. Vamos tateando nas aprendizagens sem saber aonde vão nos levar. Ficamos quase que à deriva, para se utilizar o mar como metáfora. É um mar de coisas e de acontecimentos, de sentimentos e de descobertas que nos sobrecarregamos e nem sempre utilizamos nossa inteligência para sistematizar, para reordenar nossos planetas. Já estou viajando. Já saí do mar. E é nessa viagem em que hoje me vejo em pleno estado de graça. Viajei. Fui das profundezas da terra ao cosmos infinitamente esperançoso, pleno, sereno e confiante. Ai como é bom este sentimento, esta descoberta, esta surpresa. Sou, estou dona de minha alma. Ela flutua em oração pelo entorno. A cada dia estou mais forte e pipocada de uma compreensão infinita pela vida. Credo, de onde saiu isto? É muito bom. Acho que é uma mistura de consciência e aceitação da maturidade e um retorno decisivo à sintonia maior, a transcendência existencial. Quem é que me aguenta agora?

sexta-feira, 18 de março de 2011

Estou a caminho

Os últimos dias têm sido muito reveladores. Há muito tempo que não me sentia tão poderosa. Quando estamos cabisbaixa, embora se saiba que toda a tempestade um dia passa, é difícil mudar o estado de espírito somente com tal certeza. Ser dona de mim novamente é a melhor das descobertas. Ser dona das vontades e das certezas do que não se quer é bom. Isto é demasiado sublime. Não me contenho em alegria e serenidade. Sou outra. Verdadeiramente outra. Aquela mulher desacreditada de si mesma partiu e não deixou endereço. O passado, no entanto, insiste em bater em minha porta, mas não por meu chamado. Era inevitável que o passado perdurasse mais do que minha tristeza, mas ele já não pode mais me alcançar. Não do jeito que intensiona, se repete, se investe de um poder que já não tem. Hoje inspiro vida e planos de um futuro de meditação e vida slow. Não cabe mais em minha vida um passado abrupto, invasor, impaciente. Quero o frescor de dias claros de sol e mar, casa aberta e redes na varanda. Quero a reflexão e a palestra fluídica de encontros de serenidade com pessoas afins.
Meu jardim será de minhas idéias. Minha casa será de minha paz. Meu mundo será de encontro e tolerância. Meu mundo será de música rebatendo o corpo e ardendo em sopros como o coração da terra. Os seres em meu caminho serão testemunha de minha tolerância e maciez de espírito. A terra, o mar, o sol serão meu ninho. Eu quero aceder a outro nível de entendimento que minha história tem impedido a chegada. Eu chego lá. Eu sei que chego. Estou a caminho.